Bon Gaju ô Bon Galu

 


francisco carvalho-primeiro ministro de cabo verde



o problema não é saber se ele é populista. 

é descobrir o que, no povo, 

tornou o populismo possível.


depois de algum tempo a tirar notas, lendo, observando as ruas e, sobretudo, esta espécie artificial de rede facebookina onde o país se confessa, se zanga, se elogia, se vangloria, se insulta e, às vezes até pensa, achei que já tinha matéria suficiente para escrever algumas linhas que comecei há algum tempo.

agora escrevo-as com mais frieza, não é sobre o homem civil, é sobre o primeiro-ministro, e isso faz toda a diferença, porque, na política, há homens e há personagens, e o nosso primeiro-ministro é, sem dúvida, uma personagem e tanto, não digo isto para o mandar directamente para o vermelho e o negro (le rouge et le noir), de stendhal, embora, convenhamos, certos políticos tenham sempre qualquer coisa de julien sorel: uma mistura de ambição, inteligência, circunstância e talento para perceber por onde sopra o vento; não que o escritor de barlavento germano almeida no seu artigo no jornal a nação em defesa do primeiro ministro e do próprio homem civil, intitulado “o homem (a destruir), seja um exemplo final de cidadania plena e pura, há pecados naquele texto sobretudo no estilo o-kultativu de alguns nomes. 

o nosso primeiro-ministro talvez não tenha lido stendhal para aprender a governar, mas parece ter lido o país, e isso, em política, às vezes vale mais, tenho para mim que o primeiro-ministro de cabo verde, tantas vezes chamado de populista e outros nomes que não concordo, por prezar o respeito pelas autoridades, talvez esteja a fazer uma coisa mais desconcertante do que simplesmente ser populista: está a ser coerente com o país que percebeu e encontrou.

e isto, confesso, é mais interessante do que parece, bem... no que me toca ao norte do mundo, por exemplo, já percebemos que não vai começar as obras do porto do tarrafal de santiago prometido com entusiasmo e toki altu que seria em seis meses e houve aplausos demorados, e também já percebemos que não é sangue de cabral, como chegou a dizer o presidente da câmara do tarrafal, quase a pilar um txoru stilu na bespa. e então? e agora djuzé?

não é preciso transformar tudo num escândalo, isso também é cabo verde, promete-se depressa, acredita-se depressa, esquece-se depressa e, quando chega a hora de perguntar pelo prometido, alguém olha para o céu e diz: “deixa na mão de deus.” tudo normal, ou, pelo menos, tudo é suficientemente normal para este país.

não digo que tudo isto seja um engodo ou um engano, longe disso, é simplesmente a política como ela se tornou entre nós: uma mistura de expectativa, improvisação, memória curta, esperança comprida e uma extraordinária capacidade nacional para transformar o extraordinário em coisa perfeitamente normal.

quem pensa que o primeiro-ministro é irresponsável talvez esteja a olhar para o homem errado, porque, pelo que me é dado observar, ele possui valores, inteligência política e dignidade suficientes para governar, o problema, e talvez também o seu maior talento, é outro: ele percebeu o país.

percebeu um país que, em parte, desacreditou de uma certa maneira de fazer política, percebeu um país cansado de determinados códigos, de determinadas solenidades, de determinadas elites e de determinadas palavras que já chegam às pessoas com o cheiro de coisa velha.

percebeu as ruas, percebeu os bairros, percebeu o facebook, percebeu o homem que fala alto no café e a mulher que comenta tudo na fila, percebeu o eleitor que já não quer uma aula de ciência política, mas quer saber o que vai receber, quando vai receber e, se possível, se é grátis, e adaptou-se, é aqui que começa a parte verdadeiramente interessante, porque há algum tempo começou a tornar-se normal aquilo que antes ainda nos faria corar.

tornou-se normal a má educação, tornou-se normal faltar ao outro com a palavra, tornou-se normal inventar uma história sobre alguém e distribuí-la pelas redes sociais como se distribuisse folhetos numa praça, tornou-se normal desconfiar antes de conhecer, tornou-se normal acusar antes de provar, tornou-se normal transformar a política numa espécie de campeonato de insultos.

e até mentir para chegar a ministro, ou dizer coisas que depois se revelam muito diferentes da realidade, parece ter entrado na categoria das pequenas extravagâncias da vida pública, o mais extraordinário não é isto acontecer. o extraordinário é isto já não nos parecer extraordinário,  o primeiro-ministro percebeu isso, percebeu antes de muitos.

talvez porque tenha vindo de onde veio, talvez porque tenha ouvido as conversas que outros não ouviram, talvez porque tenha percebido que um político pode perder uma eleição por parecer demasiado sério, mas pode ganhar uma multidão simplesmente por parecer que fala como ela.

e aqui há uma coisa que lhe devemos reconhecer: ele é bom, é bom a perceber pessoas, é bom a perceber ambientes, é bom a perceber ressentimentos, é bom a perceber desejos, é bom a perceber quando deve falar e, sobretudo, quando deve sorrir.

não sei se é o primeiro-ministro que eu gostaria de ter, não sei sequer se é o primeiro-ministro que ele próprio imaginou ser, mas talvez seja, neste momento, o primeiro-ministro que este país conseguiu produzir,e isso é muito mais incómodo.

porque, quando olhamos para ele, talvez não estejamos apenas a olhar para um homem,                   estamos a olhar para nós, para aquilo que aceitamos, para aquilo que perdoamos, para aquilo que exigimos, para aquilo que já deixámos de exigir.

para aquilo que queremos ouvir, e, sobretudo, para aquilo que estamos dispostos a considerar normal, talvez por isso eu termine estas primeiras notas sem uma condenação e sem uma absolvição, apenas com uma constatação, que pode ser ainda mais perigosa: o primeiro-ministro percebeu o seu país.

e, meus caros, isso não é pouca coisa, porque há políticos que querem mudar o povo, ele percebeu primeiro como o povo queria ser governado, e, na política, quem percebe isso antes dos outros já leva metade da eleição no bolso. a outra metade?

essa, como diria o cabo-verdiano, fica na mão de deus, e, para este país, ele é mesmo um bom gaju, e isto talvez seja mais difícil de admitir, porque há uma diferença entre o político que inventa um povo à sua medida e o político que percebe, antes dos outros, o povo que tem diante de si, o primeiro tenta fabricar a realidade, o segundo mede-a, apalpa-a, escuta-lhe os ruídos, percebe-lhe os vícios, reconhece-lhe os desejos e, quando chega ao poder, descobre que governar não é apenas impor aquilo que se pensa ser certo, é também compreender aquilo que uma sociedade está disposta a ouvir, a aceitar e, sobretudo, a aplaudir.

tenho a impressão de que o primeiro-ministro percebeu isso, talvez até contra a sua própria inteligência, talvez contra aquilo que, em circunstâncias diferentes, gostaria de ser, porque ninguém chega à política completamente intacto, a política é uma espécie de alfaiate pouco delicado: tira um pedação daqui, acrescenta dali, aperta uma manga, encurta uma ideia, alarga um discurso, e quando damos por nós, já estamos vestidos para a época em curso.

o primeiro-ministro parece ter percebido que esta época exigia dele uma determinada personagem, e desempenha-a bem, não necessariamente porque seja aquilo que deseja ser, mas porque percebeu que é aquilo que este momento político precisa que ele seja, a pergunta verdadeiramente interessante, portanto, não é saber se ele é populista. é outra:

e se ele for, simplesmente, o político que melhor compreendeu o seu povo, este povo, deste tempo? e, se assim for, deveríamos perguntar-nos: o problema está no político ou no povo que ele aprendeu a interpretar?

porque um político não nasce no vazio, é produzido por uma sociedade, pelas suas expectativas, pelas suas frustrações, pelas suas impaciências, pelas suas pequenas ambições e pelas suas grandes desistências, há políticos que chegam antes do seu tempo, outros chegam atrasados, e há aqueles que, por uma espécie de instinto político raro, percebem exatamente o momento em que vivem, este parece ser um deles, ele sentiu, mediu, apalpou, escutou e adaptou-se, não estou a dizer que tudo aquilo que faz seja bom, nem que tudo aquilo que diz seja verdadeiro — gaju ta nhemel suguru —, nem sequer que tudo aquilo que representa seja desejável. estou a dizer outra coisa, talvez mais incómoda: ele percebeu a geração que encontrou.

percebeu-a nos bairros, nas ruas, nas conversas, nas redes sociais, nas rezas, nas igrejas, nas filas, nos cafés, nos partidos, nas pequenas indignações e nos grandes ressentimentos, percebeu uma geração que quer resultados depressa demais, que desconfia das instituições, que tem pouca paciência para discursos longos, e tem preferência pelo curto discurso, e se possível em pidjin di santigu, e uma enorme apetência por soluções simples, rápidas e, se possível, gratuitas.

uma geração que quer o fácil, o imediato, o visível, aquilo que se pode mostrar, fotografar, repetir e partilhar e, sobretudo, aquilo que se pode dizer sem grande esforço: “deus é pai.” “deixa na mão de deus.”

é curioso que um país possa transformar a resignação numa espécie de filosofia política do quotidiano, quando não sabemos resolver, entregamos a deus, quando não queremos discutir, entregamos a deus, quando não sabemos explicar, entregamos a deus, e depois admiramo-nos de que o estado faça exatamente a mesma coisa, embora com uma conferência de imprensa, empresa essa quem temblem inventou ele ou a falta dela neste país que alimentou ele. 

há aqui uma contradição que merece ser pensada, queremos um estado moderno, eficiente, competente e europeu, com imigrantes maior, parte dela excessivamente made i terra e facilmente manipulável e instrumentalizável, e com isso, continuamos muitas vezes a pensar politicamente com categorias de sobrevivência. 

queremos hospitais melhores, escolas melhores, estradas melhores, museus melhores, empregos melhores, mas nem sempre queremos pagar o preço da exigência, da disciplina, do trabalho e da responsabilidade coletiva que essas coisas pressupõem.

o primeiro-ministro percebeu que, para muitos, aquilo que se quer é o grátis: tudo pago, tudo oferecido, tudo resolvido, a exigência é outra coisa, já não queremos uma bifana e uma asa grelhada, como chegou a dizer o primeiro-ministro num comício, queremos o resultado da modernidade sem necessariamente aceitar a disciplina que a modernidade exige, e talvez o nosso primeiro-ministro tenha compreendido isso antes de nós, não se tornou apenas aquilo que é.

tornou-se aquilo que a circunstância lhe pediu que fosse, e aqui começa o problema filosófico, até onde pode um político adaptar-se ao seu povo sem começar a ser engolido por ele? em que momento a capacidade de compreender uma sociedade passa a ser cumplicidade com os seus defeitos? e quando um líder dá ao povo exatamente aquilo que o povo quer, está a servi-lo ou está simplesmente a confirmar-lhe os vícios? esta é a fronteira difícil, porque governar não deveria ser apenas seguir o povo, às vezes, governar deveria significar contrariá-lo.

dizer-lhe não, explicar-lhe que está errado. ulisses sentiu isso e foi chamado de runhu, insensível, de ka gosta di si povo, mas essa é também a opinião de uma geração que ama o grátis, dispensa o suspensório da exigência e parece ter cada vez menos paciência para a ciência e para aquilo que exige esforço, governar também deveria significar obrigar a esperar, ensinar que certas coisas custam e explicar que nem tudo o que é popular é necessariamente justo, e talvez seja precisamente aí que começa a diferença entre o líder que conduz uma sociedade e o político que simplesmente a acompanha, mas também seria demasiado fácil condenar este primeiro-ministro por aquilo que percebeu, porque outros talvez não tivessem sequer conseguido chegar onde ele chegou.

não necessariamente porque os outros não percebessem, nem porque tivessem medo, nem porque este atual primeiro-ministro tenha mais coragem do que os demais, há, porém, uma linha que se percebe ser fácil de ultrapassar, e os homens responsáveis, aqueles que querem um povo grande, exigente e responsável, talvez não a ultrapassem porque existe um senhor implacável que toma conta de tudo: o tempo.

o tempo encarrega-se do grande julgamento e na política, o tempo é muito curto, aquilo que se faz hoje pode marcar uma geração e outras gerações durante muito, muito tempo, por isso, no fim, é a marca que fica.

o primeiro-ministro de cabo verde subiu a pulso, conheceu a linguagem das pessoas, percebeu os mecanismos sociais, aprendeu as conversas fáceis, entrou na compreensão dos chamados kopu leti, que o são e, muitas vezes, negam esse nome, talvez por medo, talvez por confusão, talvez porque certos discursos feitos e colocados na boca das pessoas acabam por atrofiar e desintegrar a própria integridade das pessoas. e há a outra parte, numerosa: os ditos bora kafé, são pessoas pobres, desafortunadas, que compreenderam a linguagem do homem e que, além de se sentirem abençoadas, se sentiram acolhidas por uma espécie de pai: na língua, no braço e na defesa, chegaram às redes sociais a partir dos bairros e formaram um verdadeiro manto de defesa em favor do primeiro-ministro, ainda quando este era presidente da câmara municipal, a vítima, nesse confronto, foi abraão vicente, e a reação foi demasiado evidente e violenta, aprece fácil enganar o povo, mas é preciso viver e beber constantemente a sua linguagem com presença e marcação serrada.

por isso, na minha leitura, criou-se uma espécie de blindagem política e emocional: qualquer acusação, por mais grave que fosse, encontraria imediatamente um coro de vozes nas ruas e nas redes sociais e até homens letrados, com cargos de responsabilidade e bem formados juntaram a esses em defesa do homem e capaz de abafar a voz da lei e dos tribunais, que caminham, muitas vezes, com a lentidão de uma tartaruga.

não estou aqui a afirmar crimes ou culpas, estou a refletir sobre um fenómeno político: quando a identificação emocional entre líder e seguidores se torna tão forte que a defesa da pessoa passa a ser anterior à avaliação dos factos, e esse fenómeno merece ser estudado, porque, para mim, é aí que a política deixa de ser apenas política, passa a ser pertença, passa a ser identidade, passa a ser quase uma família, e uma família, como sabemos, é capaz de defender os seus até quando a razão já saiu pela porta, por isso, as nomeações é entre “famílias e familiares da mesma cor”, seja em que estado natural ou artificial eleestiver.  sobretudo, o primeiro-ministro compreendeu uma coisa que nenhum político pode desprezar: a inteligência prática do povo, pode não ser uma inteligência académica, pode não vir acompanhada de diplomas, pode até ser contraditória, supersticiosa, ressentida ou oportunista, mas existe.

e um político que não a compreende está politicamente morto antes de perceber que perdeu, por isso, tenho para mim que, daqui a algum tempo, haverá grandes políticos, bem formados e competentes, que não serão mais eleitos, talvez haja mais partidos políticos e uma assembleia nacional com maior diversidade de representação, talvez a democratização da representação parlamentar produza um mapa político diferente daquele que hoje conhecemos.

o primeiro-ministro compreendeu essa inteligência prática e conseguiu transformar aquilo que outros talvez considerassem apenas ruído numa linguagem política, à sua volta apareceram os ofendidos, os esquecidos, os ressentidos, os que se consideram vítimas dos sistemas, os que carregam histórias de humilhação, os delinquentes assumidos, os prediedis, os que possuem instrução suficiente para perceber as engrenagens do poder e experiência suficiente para querer parti-las ao meio e em especial os deprimidos que se entraram ao entrarem no partido na politica, se curaram. por completo, até no bolso e no corpo. e fica a ideia que o poder é o creme mais poderoso que existe para polir a pele.  

mas não confundamos isto com bota baxo, é outra coisa, há ali uma vontade de rutura, mas rutura não significa necessariamente progresso, o novo não é automaticamente bom só porque é novo. uma coisa pode ser nova e continuar a ser medíocre, pode ser moderna e continuar a ser injusta, pode ser revolucionária e produzir apenas uma nova versão dos mesmos velhos problemas, ainda assim, experimentar é necessário, porque nenhuma sociedade se renova sem experimentar, e talvez este seja um dos grandes méritos deste momento político: obrigou cabo verde a experimentar uma linguagem diferente de si próprio.

não sabemos ainda se essa linguagem nos levará para melhor ou para pior, mas sabemos que ela existe, e isso já é importante, porque uma nação não tem apenas o direito de se salvar, tem também o direito de se enganar. o problema começa quando transforma o erro numa identidade. e cabo verde é um país particularmente interessante nesse aspecto.

somos capazes de passar horas a discutir o preço de entrada num museu e, ao mesmo tempo, atravessar alegremente o país em excursões, festas, festivais e passeios, reclamamos do passado, mas vivemos cercados por ele, dizemos que queremos futuro, mas temos uma relação quase sentimental com tudo aquilo que já aconteceu.

somos um país que gosta de recordar às vezes, até demais num tempo ceto e marcado, não que gostamos de história ou gostar de ler, isso é outra coisa. gostamos de recordar os governos. recordamos presidentes, recordamos promessas, recordamos quem fez o quê há vinte anos, recordamos quem nos ofendeu, recordamos quem nos ajudou, mas há uma coisa curiosa: lembramo-nos muito e aprendemos pouco.

talvez por isso, tenhamos tanta facilidade em transformar o passado em alindamento e tão pouca vontade de o transformar em conhecimento, é aqui que a nossa geração se torna verdadeiramente absurda.

queremos museus, mas não queremos pagar a entrada, queremos reputação, mas não queremos responsabilidade, queremos mudança, mas sem o incómodo da mudança, queremos desenvolvimento, mas sem a disciplina do desenvolvimento, e queremos líderes fortes, desde que digam aquilo que gostaríamos de ouvir.

o atual primeiro-ministro mudou, e está a mudar, muitas chefias da administração pública, colocando pessoas da sua confiança, gostemos ou não do arguido, são pessoas fiéis umas às outras: uma equipa forte para trabalhar. a ética por aqui, neste momento, virou bora kafé. todo homem possui um político de estimação oculto e um delinquente em constante contemplação no seu imaginário.  

neste aspecto, o antigo primeiro-ministro ulisses correia e silva aparece como um político antes do seu tempo, não é fácil ouvir um amigo de infância bem formado e repetir no mesmo som e diapasão a palavra dja barbari, fresh one, não que seja proibido, mas há posturas que um homem adquire que jamais deveria se partir para a rua do desprezo, ele josé ulisses correia e silva, queria um cabo verde governado por pessoas dos dois partidos, e foi barbaramente atacado por pessoa do seu partido, mas, governar não é desperdiçar quadros porque fazem são de um outro partido, a medida dele foi boa porque permitiu um cabo verde que beneficiasse da competência. e cabo verde atingiu números importantes com esses quadros de todos os partidos políticos, e fazer isso e estra a trabalhar num estado político fora do seu tempo. mas a militância carregou com tudo, e perdeu, esta é e foi uma das falhas.

o atual primeiro-ministro está, nesse sentido, a fazer uma interpretação aparentemente mais correta daquilo que este povo pensa: competência, sim, mas sobretudo dentro do partido, da confiança e da segurança que essa confiança proporciona, os discursos são para as circunstâncias, e este povo esquece demasiado depressa.

às vezes, basta um aumento de cinco escudos, continuando: queremos desenvolvimento, mas sem a disciplina do desenvolvimento, queremos líderes fortes, desde que digam aquilo que gostaríamos de ouvir, e foi aí que ulisses perdeu, ele recusou ser poeta e encantador de serpentes, como josé maria neves quando conseguiu o terceiro mandato e negou ter dito e prometido o décimo terceiro mês, talvez o atual primeiro-ministro tenha percebido esta contradição, não a resolveu. aprendeu a governá-la.

e isso é diferente, muito diferente, talvez seja precisamente por isso que merece estar onde está, não porque seja o melhor de nós, mas porque compreendeu, talvez melhor do que muitos dos seus adversários, quem somos neste preciso momento, um povo fácil, mas não necessariamente fácil para políticos responsáveis, um povo entre o apetite e a exigência.

entre a exigência e a facilidade, entre o modernismo e a resignação, entre o sonho de partir e a necessidade de ficar, como já diziam os nobisimuz klariduzuz: entre o “vamos mudar isto” e o “deixa na mão de deus”.

e quando uma sociedade precisa de um líder, acaba quase sempre por encontrar aquele que melhor sabe traduzir as suas contradições, foi isso que ele fez, talvez tenha sacrificado uma parte daquilo que pensava ser para se tornar aquilo que percebeu que precisava de ser, e há nisso uma espécie de tragédia política, porque o político pode adaptar-se tanto ao seu tempo que, um dia, já não sabe onde termina a estratégia e começa a sua própria identidade.

será que ele governa o povo? ou será que, silenciosamente, é o povo que o governa? será que ele conduz esta geração? ou será que esta geração o conduz pela coleira oculta das suas expectativas? e se amanhã o país mudar, terá ele a coragem de mudar novamente? ou ficará prisioneiro da personagem que tão bem aprendeu a representar? estas são perguntas mais importantes do que chamar-lhe populista.

porque chamar alguém de populista é fácil, difícil é descobrir o que, no povo, tornou o populismo possível, e talvez esta seja a pergunta que cabo verde ainda não teve coragem de fazer a si próprio.

quanto ao primeiro-ministro, há uma coisa que ele parece saber fazer particularmente bem, quando as coisas começam a correr para o rabez, quando a realidade ameaça ficar mais pesada do que o discurso, quando a política se transforma numa sala cheia de cadeiras desconfortáveis, ele sorri e vira a cara para longe da cara do interpelador. 

e o sorriso, na política, não é pouca coisa, um sorriso pode não resolver um problema, mas tranquiliza, e às vezes, num país cansado de problemas, a tranquilidade já é uma forma de poder, talvez seja esse o seu maior talento.

não prometeu apenas conduzir uma geração, aprendeu a fazê-la acreditar que, apesar de tudo, ainda vale a pena continuar a andar.

por aí, ou saltando o atlântico.



o texto foi escrito na sua totalidade em letras minúsculas, exceptuando o titulo. 


Mário Loff


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