A Estátua Errada no Lugar Errado
Quase cinco anos depois , tempo suficiente para um político perder a vergonha e um povo ganhar cansaço, o polidesportivo de Chão Bom foi finalmente entregue à população. Entregue como se fosse uma dádiva rara, quando, na verdade, era apenas um atraso histórico com fita cerimonial. O cimento estava aceitável. O erro veio depois. Veio em bronze. Veio coberto de pano. Veio acompanhado de aplauso ensaiado. Porque o verdadeiro acontecimento não foi o polidesportivo. Foi o busto. O busto ergue-se como quem não sabe bem se foi chamado ou empurrado para ali. Há nele uma fadiga saída da mão de quem o fez, uma exaustão que não vem da idade, mas talvez do excesso de memória alheia, memória imposta, memória fabricada, memória que pesa mais do que o próprio corpo. Um homem transformado em símbolo antes de ser questão, talvez até antes de ser ideia. O rosto inclina-se ligeiramente para a frente, como se tentasse ouvir melhor uma cidade que já não conversa com os seus mortos, mas que se sente morta ...