Há secas que começam no Voto
Há algo de profundamente inquietante nestas eleições, e não é apenas a disputa entre partidos. O que inquieta é o modo como o absurdo começa a vestir gravata, a sorrir em outdoors e a pedir confiança como se fosse virtude.
O mais estranho, e talvez o mais perigoso, é quando alguém com responsabilidades públicas, alguém que ocupa o centro do palco democrático, se comporta como se a política fosse uma rábula de café. Quando o tentamos medir pela estatura dos homens de Estado, ele escapa pela tangente da anedota, do improviso, da bravata. Um dia fala de leis como se fosse comentar sobre o tempo; no outro, trata a escola e o conhecimento como se fossem ornamentos dispensáveis. E há quem ria. E há quem aplauda. E fica a ideia que os cabo-verdianos se transformaram nos desatentos e perpassando a ideia idiota, eles não dizem por essas palavras, mas algumas propostas parecem chamar os cabo-verdianos de idiotas, mas nós não somos isso.
O grande pensador italiano lembrava que o fascismo eterno não chega de botas altas; chega muitas vezes disfarçado de trivialidade, de normalização do disparate. Ele não começa por abolir a lei, (apesar de já reforçarem a ideia de trazer as milícias, de má memória para o país), começa por ridicularizá-la. Não fecha as escolas, mas, desvaloriza o saber, não declara guerra ao pensamento, mas, transforma o pensamento em coisa suspeita, e quando nos damos conta, já estamos a discutir se dois mais dois podem ser cinco, “dependendo do contexto” onde estamos inseridos.
O mais cómico disto tudo é que não tem graça nenhuma, mas as pessoas riem como se não fosse nada, mas é uma distração silenciosa, arquitetada de fazer dormir para não se aperceber do qeu realmente importa.
O perigo não está apenas no candidato que faz do espetáculo a sua doutrina, o perigo maior está na plateia instruída que o legitima, pessoas que admiramos, professores, médicos, antigos dirigentes, bons pais, bons colegas de trabalho etc. repetem as suas palavras como se fossem máximas filosóficas, não questionam, não ponderam, não pedem provas, apenas gritam de volta.
Quando pessoas cultas suspendem o juízo crítico, não estamos perante ingenuidade: estamos perante cálculo de ocupar cargo ou conveniência. E isso é mais grave do que a ignorância.
Votar não é um gesto tribal, não é um ato de ressentimento, não é uma descarga emocional contra dificuldades reais, que existem, sim, e são muitas, votar é um contrato moral, é confiar a alguém a administração da lei, do orçamento, da escola dos nossos filhos, do hospital que um dia nos pode salvar.
Perguntemo-nos com frieza:
– Este candidato respeita as instituições?
– Tem histórico de gestão transparente?
– Há denúncias fundamentadas de práticas ilícitas?
– Demonstra capacidade de diálogo ou apenas cultiva seguidores?
Não se trata de simpatia, trata-se de idoneidade. Quando alguém foi denunciado com provas consistentes de práticas criminosas ou de má gestão reiterada, votar nessa pessoa é normalizar o desvio, é dizer que a integridade é opcional, é ensinar às próximas gerações que a astúcia compensa mais do que o carácter.
Exemplo claro: a gestão da capital deixou sinais públicos de conflitos, processos e polémicas, isso não é opinião, é fato político documentado, ignorar esse histórico é como entregar as chaves de casa a alguém que já forçou a fechadura do vizinho, esperando que connosco seja diferente.
Há quem diga: “Mas o país tem problemas.” Sim, tem, sempre teve, governação em arquipélago é exercício de equilíbrio permanente, nenhum primeiro-ministro governa sem dificuldades, a diferença está na postura: enfrentar problemas ou explorá-los; escutar ou gritar; construir consensos ou fabricar inimigos.
Estas eleições não são sobre cores partidárias, são sobre o tipo de Estado que queremos ser.
Um Estado sério ou um Estado caricatura? Um Estado de instituições ou de personalidades? Um Estado que educa ou que entretém?
O que me preocupa não é a divergência ideológica, isso é saudável, o que preocupa é a banalização da irresponsabilidade, é o entusiasmo com o desdém pela lei, é a celebração da força sobre o argumento. Há duas semanas muitos aguardam um sinal de mudança de postura, de maturidade política, de elevação no discurso, mas o que se vê é a persistência do ruído, como se a política fosse um palco cheio de apitos, onde os animais obedecem ao som mais estridente.
E depois há a coragem rara, como a de vozes internas que ousam discordar dentro do próprio partido. Quando alguém como Samilo Moreira (exemplo de frontalidade pública) critica desvios e paga o preço por isso, é sinal de que ainda há consciência. Mas também é sinal de que algo está doente na estrutura que o cerca.
No Tarrafal e noutros concelhos, há relatos de intimidação política velada: funcionários que evitam falar com simpatizantes de outros partidos, medo disseminado, agressividade organizada. Isso não é democracia madura, isso é prenúncio de erosão institucional.
No dia 17, cada voto será um ato de responsabilidade histórica. Não é exagero dizer que a escolha pode determinar se caminhamos para estabilidade institucional ou para uma progressiva desordem onde a lei se torna maleável conforme o poder do momento.
Ninguém deve votar por medo, mas também ninguém deve votar por cegueira.
Evitar que Cabo Verde deslize para um Estado “txokota” um Estado desorganizado, dominado por impulsos e não por princípios, exige coragem cívica, coragem para dizer: competência importa, integridade importa, histórico importa.
A democracia não morre apenas com golpes militares, morre também quando cidadãos conscientes decidem ignorar sinais evidentes.
Pensem, analisem, comparem trajetórias, leiam, escutem os debates com espírito crítico, conversem fora da bolha partidária. Porque, no fim, não estaremos apenas a eleger um candidato, estaremos a definir o carácter da República.
E o carácter de um país, meus amigos, constrói-se voto a voto.
Mário Loff
Poeta e Escritor
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