A Estátua Errada no Lugar Errado
Quase cinco anos depois, tempo suficiente para um político perder a vergonha e um povo ganhar cansaço, o polidesportivo de Chão Bom foi finalmente entregue à população. Entregue como se fosse uma dádiva rara, quando, na verdade, era apenas um atraso histórico com fita cerimonial. O cimento estava aceitável. O erro veio depois. Veio em bronze. Veio coberto de pano. Veio acompanhado de aplauso ensaiado.
Porque o verdadeiro acontecimento não foi o polidesportivo. Foi o busto.
O busto ergue-se como quem não sabe bem se foi chamado ou empurrado para ali. Há nele uma fadiga saída da mão de quem o fez, uma exaustão que não vem da idade, mas talvez do excesso de memória alheia, memória imposta, memória fabricada, memória que pesa mais do que o próprio corpo. Um homem transformado em símbolo antes de ser questão, talvez até antes de ser ideia.
O rosto inclina-se ligeiramente para a frente, como se tentasse ouvir melhor uma cidade que já não conversa com os seus mortos, mas que se sente morta de tanto ser humilde, de boca curvada. Os óculos, moldados no metal, não ampliam o olhar: defendem-no. Os lábios, entreabertos, parecem querer dizer algo que nunca chegou a ser discurso que tocasse as gentes do Tarrafal, talvez uma explicação, talvez uma desculpa, talvez apenas um pedido de descanso.
O bronze não brilha. Envelheceu depressa. Há nele uma melancolia que não é estética, é moral. A melancolia de quem foi erguido não pelo consenso, nem por ser conhecido e unânime na república do Tarrafal, mas pela conveniência do poder. O corpo inclinado sugere mais peso do que glória, mais fardo do que vitória. E a pergunta, inevitável, cai como um murro educado: merece um busto?
Dizem que é combatente da liberdade da pátria. Uma frase bonita. Serve para placas, discursos e silêncios cúmplices. Mas a liberdade costuma deixar cicatrizes visíveis. E a questão, obscenamente simples, permanece: o que fez ele, de concreto, de arriscado, de transformador, para merecer esta eternidade de bronze?
Perguntei, e perguntar não mata nem nos deixa desumildes. Fiz trabalho de campo. Falei com mais de cinquenta pessoas, do interior à cidade de Mangue, passando por Chão Bom. O resultado foi devastador: quase ninguém sabia quem era. A memória das nossas gentes foi implacável; não reconheceu o bronze. E isso é decisivo. Um busto que o povo não reconhece não é homenagem: é imposição.
E aqui começa a verdadeira violência.
Porque, enquanto se ergue o busto de um militante político, de um homem de partido, revelado por outro homem de partido, silencia-se deliberadamente uma mulher que é património vivo da cultura cabo-verdiana. Uma mulher que não precisou de bronze para marcar gerações. Uma mulher que cantou o país quando cantar era proibido.
Bibinha Cabral.
E não se trata de comparação. Trata-se de justiça. Bibinha Cabral não é um nome decorativo para ser pintado no muro de alguma vergonha que desapareceu da face desses senhores. É raiz. É voz. É corpo cultural. É batuque e finançon quando a Igreja e o Estado colonial os chamavam de pecado e desordem. É uma mulher moldada na dureza da terra e na resistência da música.
Curral de Baixo, hoje desaparecido, era o seu mundo. Um lugar onde todos eram família, onde a agricultura e a pecuária sustentavam vidas inteiras, onde a seca, a emigração e o abandono acabaram por desfazer casas, o fôlego da terra e os neurónios feitos malas de saudade e telhados. Foi ali que Bibinha viveu. Foi ali que cantou. Foi ali que sobreviveu.
Conheci Bibinha Cabral primeiro pela imagem: uma fotografia antiga na casa de Nhô Ariki Sinboa — mais um ignorado, mas assunto para outras horas, dessas que não registam apenas um rosto, mas um tempo inteiro. Depois, voltou a aparecer, ainda que de forma insuficiente, estampada na capa de um livro, numa antologia de poetas do Tarrafal. Justiça mínima para a dimensão da figura, mas, ainda assim, sinal de que a memória, mesmo quando tímida, insiste em sobreviver.
Bibinha viveu com dignidade plena enquanto viveu o marido, José Cabral, emigrante na América, sacristão respeitado, catequista rigoroso, homem de palavra e presença. Em pleno tempo colonial, quando a pobreza era norma e a fartura exceção rara, a casa de Bibinha funcionava como porto seguro — não por ostentação, mas por generosidade. Dizia-se, com admiração popular, que “se ela não quisesse lavar os pés, havia quem o fizesse por ela”, não como exagero folclórico, mas como reconhecimento de uma casa onde sempre havia lugar, alimento e escuta.
Depois, a vida mudou de ritmo. E Bibinha mudou com ela, não para cair, mas para se reinventar. A música tornou-se ofício, estratégia e afirmação. Vendeu bens, transformou a casa, adaptou-se ao que o tempo exigia. Cantou não por desespero, mas por saber. Cantou porque dominava a palavra cantada, o gesto rítmico, a inteligência social do finançon.
E cantava com método e mestria. Nos finançons, sabia por onde começar e onde chegar. Falava primeiro aos que tinham mais, recolhia o necessário para cumprir com a terra e o trabalho, e depois abria o canto aos remediados, sem hierarquias humilhantes, sem exclusões simbólicas. A sua arte organizava este nosso mundo interior à sua maneira: justa, astuta, profundamente humana. Cantava o corpo e a ética, o riso e o respeito, o visível e o pressentido. Era sistema em movimento.
Curral de Baixo foi a sua grande escola, um território livre antes de o ser oficialmente. Um lugar onde a cultura não pedia licença. Ali cruzavam-se batuque, tabanca, gaita e cavaquinho; festas espontâneas, encontros colectivos, celebrações do corpo e da voz. Como escreveu José Bruno Spencer, no Expresso, em 2020, texto que antes encontrei no Voz di Povo, quando me informava sobre esta grande senhora, “é nos lugares onde o poder não manda que a cultura aprende a durar”. Curral de Baixo ensinou Bibinha a durar. E Bibinha ensinou Cabo Verde a escutar-se.
E é esta mulher, esta inteligência cultural em estado luminoso, esta vida inteira transformada em voz colectiva, que a Câmara Municipal do Tarrafal optou por ignorar. Não por desconhecimento, mas por escolha. Pior: recusou uma estátua oferecida gratuitamente pelo Ministério da Cultura, alegando que Bibinha merecia algo “maior”. Trouxe escultor, fez espectáculo, publicou fotografias, encenou valorização e depois nada. Nem busto. Nem estátua. Nem memória.
Em vez disso, a Câmara Municipal escolheu gastar centenas de contos num busto de um homem de partido. Não se trata de um desvio estético, nem de uma infelicidade urbanística. Trata-se de incompetência cultural grave, daquelas que deixam marcas invisíveis, mas profundas.
O sinal enviado é devastador: aos atletas de Chão Bom diz-se, em silêncio oficial, que nunca existiram; que não houve ali corpos disciplinados, talentos forjados na terra dura, homens e mulheres que alimentaram selecções regionais, nacionais e até internacionais; que não há nomes dignos de imagem, rosto ou memória pública. Justamente Chão Bom, território fértil de desporto, esforço colectivo e excelência, é apagado para dar lugar a uma causa partidária disfarçada de homenagem.
Isto não é neutralidade. É substituição simbólica. A política ocupou o espaço da cultura. A militância tomou o lugar da memória colectiva. Essa escolha não é inocente. É violência simbólica, porque reescreve o valor de uma comunidade; é má-fé política, porque instrumentaliza o património comum para fins de fidelidade ideológica.
Só um vereador culturalmente incompetente aceita que, numa cidade viva, se erga um busto de militância enquanto se silenciam figuras estruturantes: mulheres da cultura, atletas da terra, referências colectivas que moldaram gerações. Só uma gestão cultural vazia confunde lealdade partidária com património histórico.
Os símbolos nunca são neutros: ensinam, orientam, condicionam. O ridículo não fere quem o pratica; fere quem é obrigado a contemplá-lo. Chão Bom merecia um polidesportivo, sim. Mas merecia, sobretudo, menos bronze errado e mais memória justa. E Bibinha Cabral merecia, no mínimo, não ser ultrapassada por um busto que ninguém reconhece, numa cidade que se esqueceu de ouvir quem cantou quando muitos se calavam.

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