Sabes qual é o verdadeiro absurdo deste país?

 



Não é apenas o que se faz mal, é o que se faz bem e, ainda assim, não serve. Há uma espécie de hábito nacional. O de transformar o feito em obrigação e a obrigação em silêncio. Faz-se, cumpre-se, entrega-se, e ninguém aplaude. Porque, dizem, “era o mínimo”. E talvez seja. Mas o mínimo repetido todos os dias também constrói um país. Só que aqui, o mínimo nunca chega a ser visto como começo, é logo tratado como falha.Depois há os outros. Os mais atentos, dizem eles.
Aqueles que, perante uma parede inteira erguida, apontam para o pequeno buraco que ficou por tapar. Um buraco minúsculo, talvez sem material disponível, talvez esquecido, talvez irrelevante. Mas é ali que se concentra o país inteiro. O buraco cresce, ganha dimensão simbólica, transforma-se em cratera nacional. E de repente surgem os especialistas, os que estudaram, os que analisam, os que opinam com a autoridade de quem nunca levantou uma parede, mas conhece todos os seus defeitos.E o país continua.
Há ainda um outro grupo, talvez o mais perigoso, que vive da amplificação. Uma dor de cabeça vira doença terminal, um erro vira sistema, uma falha vira conspiração. Tudo é exagerado até deixar de ser real. E isso espalha-se em vídeos curtos, em dedos rápidos, em vozes treinadas para parecer espontâneas. Opinam, desinformam, informam mal, tudo ao mesmo tempo. E são pagos, muitas vezes, para isso. Para criar ruído. Para fazer do país um eco de si mesmo.Mas o mais desconcertante não é isto.
É a divisão moral. Há quem deseje o mal quando o bem não lhe convém, e quem deseje o bem apenas quando lhe serve. Uma ética intermitente, como luz que falha. E nesse intervalo, criminosos tornam-se figuras admiradas. São recebidos com aplausos, com respeito, com um estranho tapete vermelho estendido por gente que, em teoria, deveria saber melhor.
E os jovens, os jovens, dizem amar Cabral, falam de luta, de dignidade, de consciência. Mas ao mesmo tempo, admiram criminosos assumidos e denunciados e com prova farta na rede social, seguem-nos, defendem-nos, repetem-lhes as palavras. Estão no bar e na igreja, na rua e nas salas, a construir uma narrativa onde o crime é apenas um detalhe e a humildade uma desculpa:“Sou criminoso, sim, mas sou humilde. Sou perseguido.”E isto cola. O país divide-se: entre os que fazem e os que destroem, entre os que pensam e os que acreditam, entre os barulhentos e os metódicos. Entre a pressa de julgar e a lentidão de compreender. O governo faz tudo bem? Claro que não.
Nenhum governo faz. Porque é feito de gente. E gente demora a aprender, e tomar juízo e arte para profissionais, às vezes uma vida inteira. Hoje, basta uma frase torta, mal lida, pior repetida, para conquistar mais palco, mais aplauso e mais devoção do que uma vida inteira de trabalho sério, silencioso e honesto.Mas há uma linha perigosa a ser cruzada.
Quando se começa a dar palco ao criminoso confesso, quando se legitima o erro como identidade, quando homens honrados passam a admirar quem viola as regras que os próprios respeitam, e que o desrespeito é cântico necessário e a honra é banalizada. E então acontece o mais grave. O país perde os seus homens honrados. Perde-os para o cansaço, para o silêncio, para a desistência.
E nesse vazio, os tribunais passam a ser culpados, a justiça passa a ser incómoda, e os pequenos prevaricadores, esses, exigem poder, exigem liberdade, exigem absolvição antes mesmo de serem julgados.E talvez seja esse o verdadeiro absurdo. Um país onde o erro grita mais alto que o esforço, onde o crime seduz mais do que a integridade, e onde a verdade, cansada, já nem sabe para que lado deve cair.

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