O POVO QUE AINDA RESISTE
No Tarrafal, já ninguém acredita quando a câmara diz “estamos a trabalhar”. Trabalhar no quê, afinal? No fingimento? No eterno adiamento? Ou naquele truque velho, mas ainda eficaz para alguns, de mostrar três fotografias mal tiradas para provar que a obra de cinco anos está, finalmente, “a avançar”?
A Rua Pedonal tornou-se a novela mais longa da história municipal. Se fosse transmitida na televisão, já teria mudado de elenco cinco vezes e, ainda assim, o argumento continuaria no mesmo episódio: o das promessas que não se cumprem. A estrada que devia ser concluída num ano tornou-se a metáfora perfeita da mentira formalizada, do improviso institucionalizado, do “amanhã” que nunca chega e do “quase” que se prolonga até ao ridículo.
O mais triste, porém, não é a obra. É a paciência do povo.
O Tarrafal habituou-se a viver com asfalto pela metade, valas abertas, poeira permanente, casas inundadas pelas chuvas, idosos com o pé preso na lama e mães que carregam sacos de compras parecendo que atravessam um campo minado. Habituou-se tanto que quase parece normal. Quase.
E quando alguém levanta a voz, como deve levantar, lá vêm os milicianos digitais, esses especialistas de ocasião, armados em poetas da incompetência, a escrever versos ocos para defender o indefensável. Chamam-lhe “poesia”, mas poesia não é isso. Poesia não é o enfeite da mentira. Poesia é a arte de tornar a vida funcional, justa, inteira. Poesia serve para corrigir o mundo, não para pintá-lo de maquiagem barata.
Mas há quem adore maquilhagens. E é por isso que a câmara continua a anunciar obras sem mestre de obra, sem orçamento, sem plano, sem prazos, sem vergonha. Obras que aparecem e desaparecem como truques de ilusionista cansado, sempre pronto a culpar a chuva, o vento, o fornecedor, o destino, qualquer força misteriosa que não seja a própria incompetência.
E as pessoas, muitas, demasiadas, continuam a cair no conto. Outras, felizmente, já abriram os olhos. Perceberam que este teatro já não entretém. O presidente ainda tenta a mesma jogada, mas o baralho está gasto e as cartas começam a cair das mãos.
Os bairros e vilas, esses, sofrem em silêncio. Sofrem com a criminalidade crescente, com jovens perdidos que nunca tinham sido perdidos, com insegurança que não fazia parte do Tarrafal de cinco anos atrás. Criou-se um fenómeno que agora já ninguém sabe controlar. E quem denuncia? É perseguido. É silenciado. É acusado de ser o problema, quando o problema é o que se tenta esconder debaixo do tapete.
Quando um poder teme a crítica, torna-se um poder perigoso. E no Tarrafal, o perigo já não é só institucional, é social. Perguntem aos turistas que foram atacados, violentamente até. Perguntem às famílias que têm medo de deixar os filhos brincarem na rua. Perguntem a quem vive aqui, todos os dias, sem fotografia, sem marketing, sem comunicado oficial.
O mais grave não é a obra atrasada. O mais grave é o atraso coletivo que se instala quando uma cidade inteira se habitua ao engano. Quando a mentira oficial passa a ser música ambiente. Quando as vozes que deveriam defender a comunidade preferem calar quem pensa, perseguir quem questiona e glorificar quem manda.
Mas ainda há Tarrafal. Ainda há gente que não aceita este destino amolecido. Ainda há quem saiba que o futuro não se constrói com improviso, mas com dignidade. E quando o povo se cansar, e vai cansar, ninguém terá obra, fotografia ou poema fajuto que o salve.
Porque o Tarrafal pode ser paciente. Mas não é cego. E muito menos eterno. A obra nunca pode acabar. Mas a paciência do povo tem de ter fim.
a proposito dos poetas e os poemas sobre a falsificaçoa desta nobre arte enganosa.
O Catecismo dos trovadores do nada
No Tarrafal inventaram uma religião nova:
chama-se Obra Quase Pronta,
tem cinco anos de idade
e já ultrapassou em milagres
todas as promessas de Fátima.
O altar é a Rua pedonal,
o templo é a lama,
e o sacerdote-mor aparece
de camisa engomada a anunciar
que “está a andar bem”.
A andar bem?
Só se for para trás.
Ou para o lado.
Ou para o abismo.
E atrás dele vêm os acólitos,
os fiéis do absurdo,
os poetas-livresco-digitalóides
que escrevem loas como quem escreve
listas de compras:
sem alma, sem inteligência, sem vergonha.
Versos tão rasos
que até uma gota de água os afoga.
Versos tão submissos
que até a poeira se ri deles.
São eles que chamam poesia
à propaganda com cheiro a mofo,
à bajulação institucionalizada,
ao elogio feito com saliva emprestada.
Poesia, meus filhos, não é isso.
Poesia não é aspirina para dores de incompetência,
não é perfume para cadáver político,
não é maquilhagem de incompetência municipal.
Poesia, a verdadeira,
é faca que corta as mentiras,
é martelo que parte os enganos,
é o grito que acorda o povo.
Mas eles não querem poesia.
Querem é ser porta-vozes da mediocridade,
defensores do engano,
pajem do presidente,
embaixadores do nada.
E eu escrevo este poema
para lhes dizer, com calma de tempestade:
Se a mentira é arte,
vocês são artistas.
Se a bajulação é música,
vocês são orquestra.
Se a ignorância é divindade,
Vocês são deuses.
Mas poesia,
essa vocês nunca tocaram.
E nunca vão tocar.
O Tarrafal é maior do que vocês.
Maior do que o presidente.
Maior do que esta farsa municipal.
E um dia, breve,
a obra vai acabar.
Mas a paciência do povo
acaba primeiro.
Mário Loff
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